Hoje eu terminei de dar uma entrevista para um psicólogo que esta fazendo mestrado em psicologia social aqui na PUC de SP...Pelo que eu entendi (não é o título do mestrado dele, apenas o que eu entendi da proposta), ele esta estudando a influência da internet e redes sociais no processo de construção da identidade do indivíduo. Ele era meu supervisor quando trabalhei no CRAS, e eu super me empolguei com o trabalho dele (eu ajudei ele a montar o projeto pra aprovação do mestrado), porque era um tema que eu conhecia bem, afinal, era a minha história...
Bem, acabei dando várias entrevistas pra ele...ele me mandou um arquivo com o resultado escrito de todas elas e me fez mais algumas perguntas. Achei uma reflexão bem interessante...
Primeiro ele me pediu um relato de como tudo começou, qual era o exato contexto que eu estava envolvida na época em que comecei a usar a internet...e saiu isso (meu início de história na magia):
O ano era 1.999, eu tinha 13 anos, cursava a sétima série, morava com os meus pais e meu irmão. Era uma pré-adolescente típica, vivia entre o colégio e a casa das minhas melhores amigas (que são minhas melhores amigas até hoje). A única coisa “atípica” era um problema que eu tinha desde a infância: insônia. E o meu vício por livros.
Um dia, depois de já ter lido os meus livros e os livros do meu pai, fiquei aborrecida e perguntei se não havia mais. Ele abriu o armário e tirou uma caixa onde guardava (ou escondia) seus livros da maçonaria. Folheei alguns, a maioria escrito em códigos incompreensíveis pra mim, ele tirou de lá três livros do Paulo Coelho. Um deles mudaria a minha vida.
Quando li Brida, e descobri o que o Paulo Coelho chamava de Tradição da Lua, eu senti aquele “momento em que tudo faz sentido”, eu havia descoberto meu caminho, era como se tivessem aberto as janelas e eu conseguisse ver o mundo pela primeira vez. Fiquei extasiada, havia me encontrado. Até então, nunca havia me interessado por absolutamente nenhuma fé ou religião. O problema é que o livro não trazia maiores informações, e eu não sabia o quanto daquilo era ficção ou realidade. Fiquei dois meses entre o êxtase e a angústia. Eu havia descoberto meu caminho, mas não sabia o que ele era, não sabia por onde começar, não sabia por quem ou pelo que procurar. Como meu pai é maçom e o Paulo Coelho também, na minha ingenuidade eu achei que meu pai conseguiria entrar em contato com ele e perguntar, afinal, eles eram “irmãos”. Implorava pro meu pai arranjar um meio de contato e perguntar. Um dia meu pai me deu um papel e estava escrito “Como faço para seguir a Tradição da Lua?” e a resposta logo embaixo “Procure por Wicca”.
A informação era dúbia. Wicca era, no livro, o nome da mentora de Brida. O nome de uma mulher. Perguntei onde meu pai havia encontrado aquilo, e ele respondeu “no site do Paulo Coelho” e me mostrou. Esse foi o meu primeiro contato com a internet. Naquela época o acesso a internet era por conexão discada, ou seja, só conectávamos depois da meia noite, por causa do preço dos pulsos.
A partir dali, comecei a devorar tudo sobre o assunto que encontrei. E não era muita coisa. Wiccanão era moda, não era conhecida, não havia publicações sobre o assunto em bancas de jornais, como é hoje em dia. Então o fato de ter sido custoso pra mim descobrir qual era exatamente o caminho e mais difícil ainda conseguir material, só me deixou mais e mais presa ao assunto. As madrugadas no computador desde então eram minhas.
Uma noite eu descobri uma sala de bate papo no UOL sobre bruxaria. Entrei e conheci um garoto chamado M., tinha 21 anos na época, morava no Japão. Ele me conduziu em uma conversa que durou 5 horas, e eu não me sentia mais ali. Falou sobre Deus e o Diabo, sobre yin e yang, sobre maniqueísmo, eu viajei em cada linha do que ele escrevia. Ideias totalmente inéditas pra uma garota de 13 anos. M. foi meu primeiro mentor. Entrando vários dias seguidos, eu descobri que todos os dias as mesmas pessoas frequentavam aquele lugar, e que eram amigos. M. me apresentou ao grupo dele, todos na faixa dos 18 a21 anos. Eles se tornaram uma segunda família pra mim. Como eu era a mais nova do grupo, todos eles de certa forma me adotaram. Me ensinavam muito, me indicavam livros, sites, grupos de discussão. Meus dias continuavam os mesmos, entre a escola e as minhas amigas. Mas eu passava os dias ansiosa para chegar a madrugada e poder entrar na internet e dividir tudo com eles. Nos conhecemos pessoalmente alguns meses depois, em um pic nic organizado por uma das listas de discussão que participávamos. Depois desse encontro, formamos um círculo de estudos sobre magia chamado Água da Lua (meu pai teve que assinar uma autorização e autenticar em cartório para que eu pudesse participar *risos*). Uma das pessoas desse grupo se tornou meu primeiro namorado, e é um dos meus melhores amigos até hoje.
Foi nessa época que adotei um Nick, um nome que “veio” na minha mente, eu não sabia o que significava. Fui pesquisando o significado durante anos, esse nome e tudo que ele representa eraexatamente a minha história, e foi se tornando parte da minha personalidade (ver anexo). A um ponto em que, em determinados momentos (muitos anos depois), eu era de fato a P. (meu Nick), e a S. (meu nome real) era a máscara que eu vestia pra sociedade.Tenho o mesmo Nick há 12 anos, P. Não tenho um perfil falso, já que em todas as redes que participo as pessoas me conhecem pessoalmente e há fotos minhas em todos os perfis.
Como costuma ser sua profile (página de auto-apresentação)? Você omite ou acrescentas algo sobre você?
Costumo colocar alguma citação que tenha relação à fase em que estou vivendo no momento. Pequenos trechos de músicas, poesias ou livros. Também deixo claro tudo que é importante pra mim, quais as minhas principais relações sociais, meus autores favoritos, músicos, filmes, enfim, tudo que faz parte de quem eu sou. Não omito nada, as informações estão lá para “quem tiver olhos pra ver”. Na rede eu me permito ser eu mesma, sem máscaras. Não acrescento nada, mas claro que procuro apresentar o meu melhor.
O que mais te atrai nos relacionamentos virtuais?
Atualmente nada, pois ando sem tempo pra isso. Mas o que mais me atraía quando buscava conhecer as pessoas através da internet, é que nainternet eu conhecia primeiramente o interior delas. Quem elas são, o que pensam de diversos assuntos, quais são seus gostos, hobbys, valores. Tinha tempo pra conhecer a fundo quem a pessoa realmente é, antes de conhecer a “Casca”...isso realmente me fascinava.
Como inicia uma amizade? (tem facilidade?)
Não. Não sou do tipo “aberta a novas amizades”. Tenho o mesmo grupo de amigos há mais de uma década e acredito que uma amizade demanda tempo e atenção consideráveis. Prefiro manter muito bem os que eu tenho, a ter uma rede vasta de “colegas” com os quais não interajo efetivamente.
O que muda quando vai fazer amigos face a face? (tem facilidade?)
Igualmente, não tenho facilidade. Considero-me “anti social”...Mas na verdade, eu só não faço nada que eu realmente não queira fazer. Quando alguém me convida pra um café, mesmo eu sabendo que se trata de um convite pra uma interação social e não pra um café efetivamente, eu penso “eu nem gosto de café...pra que eu iria?”. (risos) Também na internet sou anti social. Não gosto de ficar “jogando conversa fora” e nem conhecendo pessoas aleatoriamente. Quando acontece de dedicar algum tempo à alguém, é porque essa pessoa tem MUITO em comum comigo, tem uma conversa interessante e inteligente e realmente vale a pena.
O que faz nos relacionamentos virtuais que não faz nos relacionamentos cotidianos?
Sou verdadeira nas relações virtuais. Não faço o que não tenho vontade, não converso com quem não tenho vontade, me permito ser eu mesma e mostrar exatamente quem eu sou, sem me preocupar com “o que vão pensar disso”. Se eu fizesse isso nas relações cotidianas, nenhuma sobreviveria. *risos*
Como se apresenta ou responde a pergunta quem sou? (caso do Orkut).
Pelo menos a cada seis meses essa descrição muda, conforme expliquei acima. Hoje há duas frases em meu perfil do Orkut. Quem conseguir descobrir “quem eu sou” através delas, é alguém que conhece os mesmos códigos que eu. Uma delas é uma frase de uma música do John Lennon, chamada Beautiful Boy, a frase é “Life is what happens to you while you're busy making other plans” “Vida é o que acontece a você, enquanto você esta ocupado fazendo outros planos”. Acho a música inteira linda, é um pai cantando para seu filho pequeno dormir, e enquanto isso, falando sobre alguns valores, algumas expectativas. Coloquei no meu perfil porque estou passando por um período intenso de viver. Mas principalmente, é o melhor conselho que já li. Atualmente me sinto vivendo e aprendendo intensamente, e não fazendo planos. Uma outra frase que esta no perfil é o trecho de uma música da Loreena McKennitt, “O vento é preenchido por milhares de vozes, elas passam pela ponte e por mim”. Essa música, que se chama All souls night, chega a me levar às lágrimas todas as vezes que ouço. É uma oração pra mim. Fala sobre um dos mais importantes rituais da minha religião, o Samhain, o ano novo celta. E fala sobre reencontrar-se. Fala sobre imagens que sempre me perseguiram...A frase em específico que eu escolhi “O vento é preenchido por milhares de vozes, elas passam pela ponte e por mim” é porque me sinto fazendo parte do mundo, como se eu tivesse encontrado meu lugar.
Se acha diferente quando se relaciona face a face?(como? Por quê?)
Sim, sou mais tímida e mais inassertiva (estou mudando isso aos poucos). Na rede eu sei me posicionar muito bem, colocar minhas idéias e opiniões de forma clara, mesmo que vá contra a maioria. Nos relacionamentos cotidianos, costumo “ficar na minha” mais vezes, exceto no trabalho *risos.
Fale um pouco sobre estar no mundo “real” e no mundo “virtual”?
Acredito que o universo virtual não tem fronteiras, não falo sobre poder falar com uma pessoa de qualquer canto do mundo, mas poder falar sobre qualquer assunto, a qualquer hora, com a profundidade que eu quiser. Sempre vou encontrar alguém interessado nas mesmas coisas que eu. Na “vida real”, nós temos que falar de assuntos de trabalho no trabalho, de assuntos da faculdade na faculdade, e só nos momentos do tal “cafezinho” é permitido falar de qualquer outra coisa. Somos “formatados” no cotidiano a ser o que a sociedade espera naquele determinado período.
O quanto você é sincero em seus relacionamentos nas redes?
Sobre meus valores, pensamentos, interesses e idéias, sou 100% sincera.
Como as redes te ajudam ou atrapalha? (vê algum risco? Como as redes ajudam?)
As redes me ajudaram a fazer amizades e construir relacionamentos que foram importantes no processo de construção da minha identidade. Ajudaram a definir quem eu sou, quais são meus gostos, meus objetivos, o que eu espero do mundo, o que eu quero me tornar. Em um perfil, cada pessoa é um pequeno universo infinito de possibilidades. Apenas de olhar um perfil no Orkut você já consegue saber o que essa pessoa mais gosta de fazer, de ler, de comer, de ouvir, o que ela faz nas horas vagas, o que ela é profissionalmente, o que ela é em essência, como são suas relações e como elas foram construídas, quais são seus sonhos, medos, o que ela odeia, quais movimentos participa e um mundo de outras coisas. Pra quem tem curiosidade sobre o ser humano, é um prato cheio. Não há lugar melhor pra colher informações sobre alguém. O risco, pra quem se importa com isso, é a exposição demasiada.
As relações nas redes costumam resultar em encontros, face a face, sistemáticos? (quando? Por quê?)
Normalmente costumam sim. Esses encontros costumam ser organizados nas próprias comunidades virtuais, ou entre um grupo específico de amigos que se formou dentro dela.
Quais seus principais objetivos nas redes?
Atualmente? Me manter atualizada sobre os assuntos de meu interesse.
Como as redes influenciam (aram) sua identidade?
Bem, eu comecei a usar a internet e as redes virtuais quando essa identidade estava ainda em construção, quando eu buscava aprender sobre as coisas e sobre eu mesma. Também tive blogs, que na época eram diários virtuais, e o processo de escrita diário sobre as experiências que eu tinha era uma forma de reflexão, de internalizar e entender tudo aquilo. Sempre gostei muito de escrever, e na internet eu poderia também ser lida! Nisso, me tornei mais assertiva, ao menos na escrita. Na rede e nos blogs, eu falava sobre o que eu fazia, o que aprendia, sobre as minhas descobertas, o que eu não concordava, sobre as coisas engraçadas da minha família, sobre autores e livros, sobre diretores, sobre filmes. Questionava o mundo. Onde mais um adolescente tem “voz” pra isso?
Essa entrevista eu dei há quase 1 ano.
E hoje eu respondi mais duas perguntas:
Pode falar um pouco sobre a influência de “Brida” no seu processo de Identidade? (como “ela” te ajudou?) Você diz que ajudou a descobrir seu caminho – que caminho?
Brida é um livro do Paulo Coelho que conta a história de uma jovem que esta em busca de iniciar seu caminho na magia. Em um determinado momento da história, ela conhece uma Mestra que a inicia na chamada Tradição da Lua. Foi nessa Tradição da Lua que eu me encontrei, que é apenas um outro nome para Wicca, que é a versão neo-pagã da antiga religião da Deusa.
Foi um momento de despertar pra mim. Como disse anteriormente, nos meus outros relatos, foi como se o mundo fizesse sentido pela primeira vez, como olhar por uma janela que estava desde sempre trancada...e era apenas aquela realidade "sem horizontes" que eu conhecia. Onde as coisas "são assim, porque tem que ser", porque sempre foram. No caso, eu era uma menina que sequer sabia que podia existir algo além do Deus Pai Todo Poderoso, que ficava te vigiando para te punir a qualquer sinal de desobediência às suas ordens. Eu fui uma menina que cresci na chamada família "católica não praticante", mas que diz coisas pra crianças como "não faz isso porque papai do céu esta olhando". Eu não me identificava com isso. Não fazia o menor sentido pra mim um "Papai no céu" que era só amor, mas também castrador e punitivo. Um papai que via as mulheres como a origem de todo o mal na face da terra.
A Wicca foi o exato oposto de tudo isso. Uma religião que prega a sacralidade da mulher, do seu corpo, da sua liberdade. Uma religião que busca resgatar séculos de opressão da mulher pelo Patriarcado. Uma religião que deu voz às mulheres. Uma religião que me permitia ser eu mesma e que celebrava isso. O exato sentido da palavra, Religare, me religar com a minha natureza sagrada. Fazer parte do mundo, não domina-lo, apenas fazer parte de todos os ciclos da natureza.
Tudo ali, naquele livro, diante de uma garota de 13 anos que questionava a única realidade que ela conhecia.
A partir desse livro e de todo o processo que ele desencadeou, eu descobri não somente meu caminho espiritual, nascia ali também um modo de vida e de consciência política, a feminista.
Em minha conclusão eu inicio um parágrafo assim:
A história de vida de S. permitiu observar e compreender melhor como uma jovem que se diz “só mais uma” (não reconhece sua identidade) porque, segundo ela, “estava em construção”, parte para outra realidade (a realidade virtual), “um universo sem fronteiras”, em busca de sua identidade. S. luta por emancipação, para “vencer seus medos” e ...
- dentro dessa linha o que pode falar sobre como a Comunidade de relacionamento virtual te ajudou a se “libertar”? (tente lembrar como suas conversas atuaram em seu crescimento...).
No meu texto sua história com uma pré-adolescente.... e gostaria de terminar dizendo que é hoje... (o final de sua história nas comunidades virtuais é que me falta)
Esta acontecendo um processo novo agora...lembra que te falei das diferenças entre a S. e a P., e que era a P. que tomava as rédeas da vida, que era assertiva, que sabia se posicionar, etc? Bem...
No meu facebook eu não adotei mais um nick. Esta lá, meu nome e sobrenome. E antes havia várias travas, como S, eu não poderia ter "opiniões polêmicas" ou lutar por alguma causa que eu acreditasse, porque ou havia alguém a me lembrar "Você é uma psicóloga, não pode pensar assim..." ou eu mesma me cobrava um posicionamento mais neutro, afinal, eu era uma psicóloga...(risos).
Bem, não mais.
Pela primeira vez eu estou me permitindo ser eu mesma, sem nenhum recurso, nenhuma máscara para me proteger disso.
Porque eu sou mulher, bruxa, feminista, ativista pelas causas que acredito e também...psicóloga. E veja, eu só tenho a obrigação de ser "imparcial" no exercício da minha profissão, o que não é o caso em um perfil pessoal de uma rede social...
Então absolutamente tudo que eu penso e acredito, todas as causas que me movem, estão estampadas agora em meu perfil, para quem tem olhos de ver...isso me deu uma liberdade incrível, Rael.
Pela primeira vez eu não sinto mais essa diferenciação dentro de mim, eu não fico mais "invejando" meu outro lado, tão consciente, tão ativista...*rs. Porque eu consegui conciliar...
Eu sou eu, independente do ambiente em que transito agora.