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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Atena

Eu tenho muita dificuldade de me relacionar com mulheres que predominam o arquétipo de Atena. Semana passada meu namorado chegou a me dizer que eu demonstro até uma certa raiva ao falar de Atena *risos*. É mesmo muito dificil pra mim lidar com o machismo e o patriarcado. Ainda mais quando a defesa dele vem de mulheres.

Hoje lendo As deusas e a mulher madura, Jean Shinoda Bolen aponta um caminho de redenção pra essas mulheres de inclinação patriarcal.




Quando o arquétipo de Atena predomina numa mulher, especialmente se jovem, ela é mais uma filha do pai  do que irmã das outras mulheres. Esse exemplo começa a se desvanecer quando uma mulher se aproxima da terceira fase de sua vida. Se ela lembra Métis, vai entender o que aconteceu com a divindade feminina e com as mulheres - e passa a se identificar mais com elas do que com os homens. Integrando Métis, torna-se mais equilibrada e íntegra.

O retorno de Métis a mente de Atena da-se quando a "filha do pai" cresce psicologicamente e se afasta de sua identificação com a misoginia paterna e sua intolerância aos assuntos e valores femininos. Inteligente, bem educada, ambiciosa, com uma cabeça boa no campo em que trabalha e afinidade com homens de poder, frequentemente crê-se excepcional, desprezando as outras mulheres que não tenham a habilidade ou a aspiração para conseguir o sucesso como ela. Se um dia se lembrar de Métis, a primeira coisa que precisa fazer é se afiliar a outras mulheres e perder sua identificação como filha do pai e sua submissão à hierarquia. Tal transformação vem a acontecer depois de uma grande desilusão com os mentores masculinos e colegas ou com o princípio de uma instituição. Quanto mais velha a mulher Atena, mais preparada ela fica para essa mudança.

A traição a uma filha do patriarcado, traída pelo próprio patriarcado, geralmente é uma iniciação ao feminismo; uma Atena ganha um novo entendimento dos assuntos femininos que ela havia previamente descartado e consegue ver um padrão novo.

Antes disso, teria sido impossível conseguir uma ligação de amizade com outras mulheres. Também pode se dar aí o início da sabedoria feminina.

Jean Shinoda Bolen em As deusas e a mulher madura - arquétipos nas mulheres com mais de 50.
Capítulo "Deusa da sabedoria prática e intelectual: Métis no ventre de Zeus" 

domingo, 12 de agosto de 2012

A história sem fim



Há inúmeras formas de uma história nos tocar. A história sem fim marcou gerações de crianças, falando sobre algumas perdas e tribulações características dessa época. Algumas das possíveis interpretações são sobre infância x maturidade, vida real x fantasia, perda da inocência da infância, mas a forma como a história se apresentou pra mim foi através dos símbolos. A meu ver, a história sem fim é recheada de metáforas sobre a depressão que Bastian sente com a morte de sua mãe e as dificuldades que tem enfrentado em sua vida.

Bastian esta tendo dificuldades para aceitar a nova realidade sem sua mãe. Sonha com ela “novamente”, tem um pai contido e aparentemente distante, que “cumpre seu papel” tendo uma “conversa séria” de poucos minutos com o filho onde lhe diz “Nós dois temos responsabilidades e a morte de sua mãe não é uma desculpa para não cumprirmos os deveres. (...) Eu acho que você já tem idade o suficiente para ver que tem que descer do mundo da lua e tem que viver com os pés no chão”. Enquanto lhe cobra engajamento em diversas tarefas: aulas de equitação, participar da equipe de natação, entre outras. Ignorando a dor e a perda do filho, e seu modo de lidar com os problemas. Bastian não esquece desses conselhos, pois é um dos conflitos que vive ao longo de sua história.

A caminho do colégio, Bastian sofre bullying, que o obriga a ter que se refugiar de seus agressores em uma biblioteca. Encontra um senhor que pede que ele se retire de lá, pois não gosta de crianças, desdenha de Bastian dizendo que ali tem apenas pequenos objetos retangulares chamado livros. Bastian tem que se impor e falar sobre seu vasto conhecimento a esse respeito para conquistar o interesse desse senhor. Ainda assim, o senhor da biblioteca o provoca, dizendo que o livro que esta lendo é muito diferente de todos os livros que Bastian já leu, pois o transforma, é perigoso, não o deixará depois voltar a sua confortável posição antes de iniciar a leitura. É o suficiente pra que o garoto decida que quer ler o livro, o “pega emprestado” escondido do senhor.

Refugiado na escola, começa a ler. A história do livro se passa em Fantasia, onde os moradores estão enfrentando um problema: o NADA tem feito com que todo o mundo em que vivem simplesmente desapareça. Precisam ir até a torre de Marfim buscar ajuda da Imperatriz. Porém a Imperatriz esta sofrendo de uma doença fatal, e somente um guerreiro pode encontrar a cura, enfrentar o Nada e salvar Fantasia. Seu nome é Atreyu.

Atreyu é uma criança pouco mais velha que Bastian, e vem em resposta ao chamado das criaturas de Fantasia. Ele parte apenas com um cavalo branco, Artax, e o Aurin, um amuleto que irá guia-lo e protegê-lo.

Nesse momento, o vilão Gmork começa a persegui-lo em silêncio.

E aqui começam todos os simbolismos do filme relacionados à depressão e ao processo terapêutico de cura que Bastian esta buscando. Primeiro ele procura a cura para a Imperatriz no “Deserto das esperanças perdidas” simbolizando a desesperança característica da doença. Então procuram Morla, o ancião, o mais sábio dos seres de Fantasia. Mas para isso tem que atravessar o “Pântano da Tristeza”, um dos clímax do filme e que marcou gerações. “Todo mundo sabia que quem deixasse a tristeza dominar, afundaria no pântano”. A metáfora é clara e nem precisa de mais explicações. Seu cavalo, Artax, não consegue sobreviver à travessia no Pântano, a despeito das tentativas desesperadas de Atreyu de salvá-lo “Combata a tristeza, Artax, esta deixando a tristeza do Pântano te dominar. Você tem que tentar, não desista!!!”. Atreyu sabe que para não afundar no “pântano da tristeza” precisa ser forte e não deixar que esses sentimentos o vençam.


Em seguida, encontra Morla. Morla simboliza a apatia, um dos sintomas depressivos. Apatia é um termo psicológico para um estado de indiferença, no qual um indivíduo não responde aos estímulos da vida emocional, social ou física. Morla diz em seu discurso que para ele, não há importância quem é, o que esta acontecendo em seu mundo, que não liga para a doença da Imperatriz, e quando Atreyu suplica que lhe ajude, ou toda Fantasia será destruída, perguntando se ele não se importa com isso, Morla responde “Nem importa se nos importamos ou não”. Atreyu rebate que se ele não ajudar, irá morrer também, ao que Morla responde “Morrer ao menos seria alguma coisa...” simbolizando o total vazio que sente.

Morla ficou tanto tempo sozinho (milhares de anos), criou uma segunda presença e fala de si sempre no plural. Tem alergia à juventude.
Por fim, diz a Atreyu que ele pode buscar ajuda no Oráculo do Sul, mas o desestimula a tentar, pois fica a 15 mil quilômetros de onde estão.
O garoto tem que novamente atravessar o pântano da tristeza, sem esperanças de conseguir alcançar o Oráculo do Sul, quase é atacado por Gmork e é salvo por um dragão da sorte, Falkor.

Além de salva-lo, Falkor o limpa, cura suas feridas, escuta o garoto enquanto esta inconsciente, o ajuda a ir até o Oráculo do Sul, estimula sua jornada com palavras de incentivo. Falkor simboliza a ajuda externa que Atreyu necessita em sua jornada (contra a depressão/salvar Fantasia), talvez o terapeuta ou um amigo próximo. Atreyu diz que é bom ter novamente um amigo, e Falkor lhe diz que ele tem mais de um, e apresenta um casal de velhinhos (Gnomos?) que moram em uma árvore, e que cuidaram dele enquanto estava enfermo.

Esse casal, um cientista e uma curandeira, simbolizam duas formas distintas de lidar com a doença. A ciência e seus métodos comprovados ou a sabedoria popular, o misticismo, o senso comum. O casal discute o tempo todo sobre qual seria a melhor forma de curar o garoto. “Ele não precisa de trabalho científico, precisa das minhas poções mágicas”. O velho cientista se apresenta como “Especialista no Oráculo do Sul”.

O oráculo do Sul é especialmente simbólico. Há dois portais que Atreyu precisa atravessar antes de chegar ao Oráculo do Sul. O primeiro é o Portal das Esfinges. “Os olhos das esfinges ficam fechados até que alguém que não conhece o próprio valor tenta atravessar o portal”. A metáfora, claríssima, nos lembra que para conseguir vencer sua jornada, Atreyo precisa saber quem ele é, saber seu valor, sua própria força e confiar em si mesmo. Do contrário será literalmente destruído no caminho.

O segundo portal é, segundo as palavras do velho cientista, ainda pior que o primeiro. É o Portal do Espelho Mágico, onde a pessoa tem que se defrontar com seu Verdadeiro Eu. “Mesmo quem é bondoso, pode ver que é cruel. O corajoso pode descobrir que é covarde”. Esse portal simboliza o encontro com a própria Sombra (o arquétipo junguiano).

Em seguida Atreyo consegue chegar ao Oráculo do Sul, e descobre que para salvar Fantasia, precisa que uma criança humana dê um novo nome para a Imperatriz. Dar um novo nome simboliza um recomeço, um novo mundo, uma nova chance para Fantasia (para si mesmo).

Bastian gostaria de nomear a Imperatriz com o nome de sua mãe.
Atreyo parte com Falkor em direção às Fronteiras de Fantasia, em busca da criança humana. No caminho, passa pelo Mar das possibilidades, que ironicamente, não apresenta possibilidade alguma. Encontra apenas o Vazio, pois o Nada os alcança. Atreyo cai do dragão, perde o Aurin e encontra-se totalmente sozinho. Perde sua sorte e sua proteção, tem que lidar com seu inimigo apenas com seus próprios recursos internos.


Nesse momento, encontra o Come Pedras e seu simbólico e desolador monólogo, enquanto contempla sua força e sua derrota: “Olhe só minhas mãos, parecem ser grandes, parecem ser fortes, não é? Mas eu os perdi. Não consegui segura-los (os amigos). O Nada arrancou todos eles das minhas mãos. Eu falhei.” Nesse discurso, ele demonstra seu sentimento de Impotência. E finaliza com “Ouça...o Nada chegará a qualquer instante, eu vou ficar aqui sentado e deixar que ele me leve. Essas mãos...parecem ser muito fortes, não parecem?” Simbolizando a total desesperança.


Atreyo encontra em gravuras nas paredes toda a sua história retratada. Em seguida, se depara pela primeira vez com Gmork. O vilão o ameaça despedaça-lo. Atreyo diz que não consegue salvar Fantasia, pois não esta conseguindo achar suas fronteiras.
Gmork diz “Fantasia não tem fronteira. Cada pedaço, cada ser que existe nela é uma parte dos sonhos e da esperança da humanidade. Sendo assim, não tem fronteiras.”
Atreyo pergunta afinal, o que é o Nada? E temos a melhor e mais simbólica explicação para a depressão que já tive contato: “O Nada é o vazio que resta.”

Gmork revela que tem tentado ajudar o Nada, que se alimenta de esperanças, pois as pessoas que não tem esperanças são fáceis de serem controladas, e quem tem controle, tem poder.
Gmork representa o Adulto, a perda inevitável da fantasia. O cético, o pragmático.


Atreyo mata Gmork. Falkor ressurge com o Ourin recuperado. Mas Fantasia é destruída pelo Nada, restando apenas alguns fragmentos.
Atreyo consegue encontrar a Imperatriz, que lhe diz que todo o trabalho não foi em vão, pois ele trouxe junto de si a criança humana que pode salvar Fantasia. “Ele sofreu junto com você...ele passou por tudo que você passou...”

Em seguida clama e implora que Bastian lhe salve. O garoto vive um conflito, pois lembra que seu pai lhe recomendou que mantenha os pés no chão, não pode acreditar em fantasias, não pode interagir com esse mundo.

Mas por fim, renomeia a Imperatriz e então esta com ela em Fantasia. Não há nada ali. Apenas o vazio. Mas não o vazio do Nada, e sim um vazio que pode ser preenchido por inúmeras possibilidades. “O início é sempre escuro” ela diz.


Bastian faz seus pedidos, restaura aos poucos Fantasia, e voa em Falkor, sobrevoando um novo mundo. Vê Atreyo correndo por campos com Artax, Come Pedras e todos os seus amigos vivos, e então seu próximo pedido é reescrever sua própria história. Sobrevoa com Falkor o mundo real em que vive e enfrenta finalmente os garotos que o agrediam...